domingo, 23 de maio de 2010

POEMA CONTRA O RACISMO

“Lágrima de preta”


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.


Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:


Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.”


António Gedeão


O QUE PRETENDE TRANSMITIR O POEMA?

O poema “Lágrima de preta” de António Gedeão transmite-nos uma mensagem profunda e uma lição cheia de humanismo. Em primeiro lugar, deveremos referir que António Gedeão é um poeta, mas também um professor de Ciências Físico-químicas.

Assim sendo, ao poema “Lágrima de preta” pode ser feita uma análise poética e uma análise científica. Neste sentido, o sujeito poético vai analisar uma lágrima de preta e provar que ela é igual a qualquer outra lágrima. Esta é a ideia central do poema, onde vemos a vertente anti-racista do mesmo, que poderá ser exposto em qualquer propaganda contra o racismo realizada nos dias de hoje.

O sujeito poético recorre a uma fina ironia, é de notar a escolha intencional do nome “preta”, com uma carga usualmente negativa, para analisar cientificamente. O poeta é peremptório pois indica que na lágrima não encontrou vestígios de negro, nem quaisquer sinais de ódio, querendo sugerir a atitude pacífica, de compreensão e de tolerância de que é portadora esta “…preta que estava a chorar”.

O poeta suscita nos leitores uma reflexão sobre o essencial e o acessório, sobre o interior e o exterior, sobre a essência e a aparência, sobre o modo como convivemos com o outro e como aceitamos a diferença.

António Gedeão pretende, fundamentalmente, denunciar preconceitos, pré-juízos que comandam uma certa ideologia de que há raças, povos ou gentes que são superiores a outros e que tem servido de justificação ao longo da História, para atitudes e comportamentos de marginalização, de exploração, de exclusão, de intolerância (racismo, xenofobia) perante quem é diferente, seja na cor, na raça, ou no credo.

A beleza deste poema está na simplicidade da sua construção, com versos curtos e simples, composto por seis quadras dotadas de musicalidade e vocábulos técnicos em perfeita sintonia com os mais correntes ou de sentido mais subjectivo. Os pequenos versos escritos em linguagem científica enriquecem o poema, na medida em que relacionam uma simples gota de água com sal dissolvido com todo um processo de experimentação complexo que envolve várias substâncias químicas.

João Rodrigues


A conclusão a que eu cheguei, é que sejam de quem forem as lágrimas, são todas iguais. Todas têm o mesmo conteúdo e são produzidas pelas mesmas razões. Não são diferentes, só pela pessoa ser de cor diferente ou de outra etnia.

Diana Gomes

 

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